O que há de errado comigo?

Muitas mulheres se preocupam se são normais ou adequadas em relação a sua sexualidade.

Algumas vezes são preocupações que aparecem de tempos em tempos, outras vezes podem provocar grande ansiedade e uma sensação constante de ser diferente e estranha.

Será que eu deveria sentir mais desejo?

É normal sentir mais vontade que meu parceiro?

Não me pareço em nada com as modelos das revistas, será que sou atraente?

Será que estou tendo orgasmo do jeito certo?

Talvez eu seja lésbica, já que não quero tanto sexo.

Esta é uma pequena amostra das preocupações que as mulheres carregam todos os dias e que podem atrapalhar o sexo e também os relacionamentos.

O que há de errado comigo

Infelizmente, é muito raro ter alguém com quem se possa tirar estas dúvidas. Já pode ser difícil conversar sobre sexo, ainda mais sobre aquilo que achamos ser estranho ou diferente.

Até mesmo com nossos médicos é difícil de conversar, e muitas vezes nem eles tem o treinamento adequado para responder perguntas de sexualidade.

E então guardamos nossas perguntas e continuamos a nos indagar “o que há de errado comigo?”.

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Você não está sozinha

Seja qual for sua preocupação, fique calma, você não é a única.

Mulheres em relacionamentos amorosos e felizes podem ter dificuldades sexuais. Mulheres em relacionamentos infelizes também.

O ponto aqui é que compartilhamos muitos problemas parecidos pelo simples fato de sermos mulheres. Isso tem muito a ver com o modo negativo com que somos ensinadas sobre nossa própria sexualidade.

A força do aprendizado

A necessidade ou vontade de reprodução é inata, natural e acompanha todas as pessoas. Porém, todo o mais, como o que consideramos apropriado ou não, decente ou indecente, é aprendido durante a vida.

Em resumo, reproduzir faz parte do instinto de todos os animais e também do ser humano, enquanto que sentir prazer depende do aprendizado durante a vida.

E assim, podemos ter aprendido mais ou menos o que é prazer e como fazer para atingi-lo.

Durante esse aprendizado ao longo da vida, homens e mulheres são ensinados de forma diferente sobre sexo.

Em nossa sociedade os homens são ensinados a serem provedores, a serem lógicos e racionais, a serem bons em consertar coisas e assim por diante.

Já as mulheres são ensinadas a cozinhar, a cuidar dos filhos e a ser a base emocional da família.

Ainda que muito tenha mudado nas últimas décadas, com a chegada da pílula, da Revolução Sexual, do aumento dos direitos das mulheres, etc, muitas ideias sobre sexualidade ainda estão presentes e continuam, mais ou menos, sendo ensinadas às meninas.

Educação diferenciada entre homens e mulheres

A maior parte das dificuldades sexuais que as mulheres encontram tem a ver com conflitos culturais e a com falta de informação adequada sobre sexo. E embora já tenham ocorrido muitas mudanças, nem sempre é fácil modificar antigas atitudes e sentimentos.

Mas, com algum esforço e o treino certo, é possível.

Como melhorar a experiência sexual?

Quando identificamos as ideias que nos prendem e que tornam difícil a vida sexual e os relacionamentos, podemos escolher fazer diferente.

A estas ideias de como alguém deve se comportar sobre um assunto chamamos de “papel” ou “script”. Vamos ver três papéis que costumam bloquear as mulheres em sua vida sexual:

1. Sexo é bom e sexo é ruim

Durante a vida as mensagens sobre sexo e sexualidade não são claras para as mulheres: são informações que muitas vezes entram em conflito.

Por exemplo, muitas mulheres foram ensinadas que o sexo é algo sujo e perigoso; contudo que deve ser guardado a alguém que se ama. Como se pode dar algo “sujo” e “ruim” a alguém que amamos?

Outro exemplo é sobre ser atraente. As mulheres são ensinadas de que precisam ser atraentes para despertar o interesse masculino. Contudo, se são atraentes demais (o que seria demais, não é mesmo?), podem ser consideradas provocadoras e ficar com uma reputação “ruim”.

De forma geral, as mulheres são ensinadas de que os homens têm muito desejo e que são incontroláveis e que cabe às meninas controlar e parar o rapaz, antes que algo além aconteça.

Sim, sim, ainda hoje é assim.

Pense nas instruções que normalmente as mães dão às filhas sobre como se comportar com o namorado. Sobre como é preciso “bancar a difícil”, como ele vai te desvalorizar se você deixar ele seguir adiante ou se for para a cama no primeiro encontro.

Eliminando bloqueios sexuais

Dessa forma as meninas são ensinadas a pensar e controlar seus impulsos, vontades e sentimentos e raramente aprendem a se conectar com a experiência do momento, com o prazer e com o que está de fato acontecendo naquele momento.

O reflexo disso são mulheres que não conseguirão se soltar, curtir e aproveitar o encontro sexual.

Outra consequência complicada destas mensagens duplas é que cabe à mulher parar o homem, como se este não tivesse controle sobre si-próprio.

Isto leva ao envio de mensagens duplas também aos meninos, do tipo “mesmo que ela diga não, continue avançando, porque no fundo ela quer dizer sim”.

Esta é a base de uma cultura que estimula a violência sexual, ou seja, que ensina meninos a ignorar quando as meninas dizem “não”.

2. Sexo é campo masculino

Apesar de muitas mudanças no campo da sexualidade, sexo ainda é considerado assunto e direito masculino.

Muitas mulheres têm dificuldades em serem diretas e assertivas no campo sexual, em manifestar seu interesse e agir de acordo.

O termo “ser usada” ainda é amplamente utilizado para descrever uma mulher que é objeto do desejo masculino, como se o oposto não pudesse acontecer, ou mesmo como se a mulher não tivesse vontade e desejo sexual.

Outro reflexo desta ideia é a de que os homens devem saber tudo sobre sexo e às mulheres “não fica bem” saber muita coisa.

Ou seja, é exigido dos homens que sejam “experts” sexuais e que as mulheres sejam inocentes, ou ao menos, que não demonstrem ter mais conhecimento sobre sexo do que seus parceiros.

Educação em sexualidade

O problema é que homens e mulheres têm corpos e reações diferentes no sexo. Isso faz com que homens, em geral, não tenham muita ideia de como tocar uma mulher para levá-la a ter prazer.

E aqui outro problema aparece: o prazer é responsabilidade dos dois. É a mulher quem precisa saber de si, comunicar ao parceiro como gosta de ser tocada.

Contudo, como somos ensinadas de que é melhor não saber sobre sexo, de que não se pode falar sobre preferências sexuais diretamente e que se falarmos, estaremos ofendendo o ego de nossos parceiros, continuamos deixando os homens arriscarem-se às cegas.

Quem perde? Homens ficam ansiosos e mulheres insatisfeitas. Quando há tabu, todo mundo perde.

3. Não se toque ou “Sente-se como uma menina!”

Durante a vida, as mulheres recebem mensagens negativas sobre seus corpos e, também, sobre os genitais.

Somos ensinadas a não tocar nossas vaginas e a nem dar o nome correto a ela (normalmente são dados apelidos para as áreas genitais).

Isso faz com que muitas mulheres tenham verdadeira aversão a sua vagina, preocupadas que a área tenha mau cheiro, que a vulva e vagina sejam feias e que tenham gosto ruim.

Estas preocupações impedem a mulher de relaxar e aproveitar as sensações sexuais, o que resulta sempre em dificuldade de orgasmo e muitas vezes em dor durante a relação.

Outro problema gerado por esta mensagem, é que as mulheres não aprendem a se masturbar.

Lembra que a reprodução é instintiva, mas que o prazer e orgasmo são aprendidos? Então, as mulheres são impedidas de aprender a ter orgasmos.

E se não há aprendizado e treino, provavelmente a mulher não conseguirá atingir o clímax durante suas relações.

Um agravante é que não somos ensinadas sobre nossa anatomia, pouquíssimos livros de anatomia mencionam o clitóris, e quando mencionado não possuem nenhuma outra informação sobre este órgão desenhado pura e simplesmente para o prazer.

Como resultado destas mensagens, inúmeras mulheres sentiram e ainda sentem culpa ao se masturbar. Muitas mulheres não conseguem sequer pedir aos parceiros por sexo oral ou masturbação.

E, assim, cada vez mais se sentem inadequadas a conformadas a uma vida sexual sem prazer.

E de novo: sexo é aprendido

Para o corpo responder de forma adequada a um encontro sexual, ou seja, sentir desejo, excitação e atingir o orgasmo, é preciso que a cabeça esteja bem.

Isso quer dizer que as crenças e papéis que carregamos como resultado de nossa aprendizagem podem prejudicar a resposta do corpo diretamente.

Portanto, o primeiro passo rumo a uma vida sexual plena é trabalhar a cabeça. Jogar fora mensagens erradas e se apoderar de seu próprio corpo e de sua sexualidade.

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